sábado, 28 de agosto de 2010

Os quilombos. Segunda parte: Evolução do conceito segundo estudos posteriores a 1694

Há traços comuns entre costumes verificadas na África e os quilombos americanos (Palmares foi o referente no estudo), há várias semelhanças na organização. A experiência africana indica que o processo de migração em procura de terras férteis, teria ocasionado um processo de fusão, interconexão e miscigenação entre os clãs, além das alterações nas estruturas econômica, social, cultural e psicossocial. De fato, os guerreiros africanos funcionaram resistindo ao domínio português e se incorporando depois à empresa escravista, muitos deles foram transferidos para o novo mundo na condição de elementos escravizados.
Os quilombos brasileiros foram cópias dos quilombos africanos, reconstruído pelos escravizados para se opor a uma estrutura política na qual se encontraram todos os oprimidos. Organizavam-se em função da persistência da cultura africana e em resposta ao processo de aculturação imposto pela sociedade escravista opressora.

No estudo dos quilombos há distintas abordagens já desde o século XVIII:

A definição produzida em 1740 pelo Conselho Ultramarino (autoridades portuguesas) para se referirem aos agrupamentos negros livre do domínio colonial que proliferaram após da campanha destruição do quilombo de Palmares foi a seguinte:
Quilombo, “toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões neles”.
A idéia de resistência cultural através de um restauracionismo de padrões africanos. Os fundamentos os encontraram em que os quilombolas mantiveram suas culturas originárias: religião, tradições sociais, linguagem, cultura material. Concluírem que tinham reproduzido tradições organizacionais (política e guerreira) dos povos bantos da África. Além de luta de frente à cultura opressora.
Na década de 1960 surge uma interpretação na qual a rebeldia escrava passou a ser inserida no contexto da luta de classes. Nessa linha se enfatizou os atos de rebeldia coletiva dos escravos. Mais a gente se pergunta, por que os quilombos não terem conseguido forças para destruir o sistema de opressão escravista?
Estudando o Quilombo do Leblom na cidade do Rio de Janeiro nos anos finais do escravismo se observa a inter-relação de africanos, crioulos, escravidão e outros grupos. Costumavam manter estreitas relações com as comunidades em geral, no que se chamou de quilombos relacionais, ou seja, não só a idéia de quilombo como “sobrevivência africana”. No Quilombo do Leblon se especializavam na produção de camélias, flor símbolo do movimento abolicionista, e contava com a proteção de personalidades de destaque da sociedade carioca, inclusive da própria Princesa Izabel.
• O segundo Congresso de Cultura Negra das Américas se realizou no Panamá em 1980. Suas conclusões foram posteriormente publicadas com o título de “O Quilombismo: Uma Alternativa Política Afro-brasileira”, talvez seja o que melhor expresse o sentido de quilombo como um programa político do negro brasileiro. Nesse sentido “Quilombo não significa escravo fugido conforme ensinam as definições convencionais. Significa união fraterna e livre; encontro em solidariedade, convivência, comunhão existencial.”

Camélia, flor do movimento abolicionista.
Camélia branca = Flor de grande beleza e brilho, significa “O Belo perfeito”
Camélia rosada = Significa “Grandeza da alma”
Fim... mas segui...

miércoles, 25 de agosto de 2010

Quilombo. Filme do diretor Carlos Diegues

Título do filme: QUILOMBO
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Direção: Carlos Diegues
Elenco: Antonio Pompeo, Zezé Motta, Vera Fischer, Maurício do Valle, Grande Otelo, Daniel Filho, Jofre Soares. 119 min. Globo Vídeo.
Resumo: Em meados do século XVII, escravos fugidos das plantações canavieiras do Nordeste, organizam uma república livre, o Quilombo dos Palmares. O quilombo sobreviveu por mais de 70 anos, até a destruição final.

martes, 24 de agosto de 2010

Os quilombos. Primeira parte.

Os negros eram tratados com uma crueldade incrível, os exemplos de violência causavam espanto (dos castigos físicos já falei em “A escravidão” 08/08/2010).
Tinham que aceitar a escravidão como uma graça já que segundo a lógica reinante “como a Igreja o tinha cristianizado teria que ficar agradecido para toda a vida”.
O negro era o mais inferiorizado na sociedade, era chamado de preguiçoso, traiçoeiro, malicioso, vadio... O mulato estava um grau acima, até ele acreditava que estava mais próximo ao branco, negava a própria cultura, os valores negros. Muitas vezes aceitava a superioridade dos brancos que os tinham de vassalo.
Gilberto Gil, O el dorado Negro.
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Diante de tantas injustiças, muitos lutaram pela liberdade... As lutas adquiriram várias formas, desde suicídios até fugas, desde insurreições até guerrilhas.
As lutas que tinham empreendido, foram motivo de discussão posterior e originaram diferentes linhas de estudo. Para alguns não eram movimentos de consciência coletiva organizadas, eram rebeldias onde procuravam se liberar da escravidão, para outros foram lutas de classes (na parte dois falarei disso).
Os fugidos se reuniram em lugares de difícil acesso fazendo ali sua morada, com terras férteis, animais, frutas, rios, madeira... Tudo o que necessitavam para a vida e para a luta... Os quilombos... Segundo o escritor Eduardo Galeano “Santuários de Liberdade”. Os quilombos foram redutos base da resistência negra contra a escravidão, acharam se em qualquer lugar do Brasil onde houvesse relações escravistas, funcionavam como elementos de desgaste da sociedade branca. A organização social era importante, muitas vezes foram destruídos parcial ou totalmente e novamente foram organizados pela força e coragem de seus moradores.
O quilombo que mais se destacou pela organização, pela extensão e pela duração (mais de 65 anos) foi o “Quilombo de Palmares”, foi um verdadeiro Estado Negro Autônomo no Brasil senhorial...
As pessoas que moravam ali não eram apenas negros, não. Aceitaram mestiços, índios... Estavam organizados, domesticavam animais, desenvolviam a arte da cerâmica e os rudimentos da metalurgia. Houve diferentes maneiras de chegar a um quilombo:
• Os que chegavam por vontade própria (fugindo) ficavam livres direito,
• Os que chegavam por ter sido raptados ou aprisionados na guerrilha ficavam aprisionados até que levaram outro negro ao quilombo, então ficavam livres.
As terras férteis onde estavam permitiram os cultivos de milho, mandioca, cana-de-açúcar, arroz, batata-doce, a produção a usavam para eles e para fazer comércio nas cercanias.
A organização política era semelhante ao reino da África, com um Rei e um Conselho, ao Rei era escolhido entre os que tinham destaque na guerra, uma condição muito importante ser rei era não querer negociar a paz com os brancos, a paz a conseguiriam por meio da luta...
Zumbi foi o rei da grande resistência em Palmares, no ano 1694 depois de uma heróica resistência foram apanhados por surpresa e morreram lutando, todos menos Zumbi que apenas foi apanhado e decapitado no ano seguinte, sua cabeça foi exposta na praça.
Zumbi não era imortaL (20 de novembro de 1695) como diziam seus homens...

20 de novembro: DIA DA CONSCIÊNÇA NEGRA em honra a Zumbi que tão dignamente lutou pelos direitos da população com bravura e coragem.

lunes, 23 de agosto de 2010

"QUILOMBOS, SANTUARIOS DE LIBERTAD" Eduardo Galeano

A gente não pode fazer tradução do escritor Eduardo Galeano... jamais encontraria a poesia das suas palavras. A gente tenta um resumo da entrevista...
Eduardo Galeano comparte con nuestro corresponsal alguna de sus reflexiones sobre de la historia de la lucha y la resistencia negra, del racismo que aun sobrevive y de los dioses que quedaron en el mar.


Q! - En las historias que rescatás de América están los negros…

EG - Claro, yo creo que somos un arcoiris, la condición humana es un arcoiris espléndido que tiene mas colores que los colores del arcoiris del cielo. Es un arcoiris terrestre, carnal, espléndido, multicolor. Y el racismo nos impide verlo en toda su hermosura. Los negros han sido como los indios y como otros también en el mundo, víctimas de esa negación, que se multiplicó cuando fueron convertidos en cosas a partir de la esclavitud masiva, cuando Europa resucita la esclavitud grecorromana hereditaria, donde el hijo del esclavo nace esclavo para proporcionar mano de obra gratuita a las plantaciones coloniales y a las minas en América. Los negros son víctimas en la articulación de América en el mercado mundial. América produce, genera, brinda productos que requieran esa mano de obra que África brindó. Millones y millones de gente, jóvenes cazados como fieras, arrancados de sus tierras y vendidos como cosas.

Q! - Y así mismo ellos en América gestaron sus quilombos.
EG - Sí, es una historia que esta por escribirse. Hay algunas cosas, pero pocos registros de esta gran gesta a lo largo de los siglos, de los negros que fueron capaces de construir, de crear en lo hondo de la selva sus santuarios de libertad. Que sobrevivieron a la cacería de los perros, y que fueron más fuertes que el miedo al castigo, por que al esclavo que huía, cuando el amo lo recuperaba, o le cortaba los tendones o las orejas o los ahorcaba lisa y llanamente.
Entonces esos hombres y mujeres que fueron más fuertes que el miedo generaban en América sus espacios de libertad que en Brasil se llamaron quilombos. Y fijate vos lo que son las cosas, cómo el racismo se perpetua con el lenguaje, porque quilombo en el lenguaje rioplatense, común en Argentina, Uruguay, sur de Brasil, Paraguay, significa, relajo, caos, desorden, burdel, o sea casa de putas. En esa doble significación, significa casa de putas o relajo, una cosa incomprensible, un lío tremendo, un caos. Caos o puterío es un quilombo. Y quilombo originalmente es de origen africano y sirvió para nombrar los santuarios de libertad de los esclavos en América.

Q - Esa es la característica del lenguaje hoy.
EG - El lenguaje está enfermo siempre de las taras de la sociedad que lo genera. Yo te hablo de una palabra que nace de la más hermosa manera definiendo un espacio de libertad, resulta transfigurada por el lenguaje en sociedades racistas que desprecian a los negros para convertir esa palabra, que es un símbolo de libertad, en un símbolo de caos y de puterio. Y ese es una de las cosas del lenguaje mas reveladoras que conozco, mas significativa.

Q - ¿Ves hoy espacios donde los fugitivos del sistema puedan organizarse libremente?

EG - Sí, de algún modo siempre esos espacios se generan. En algunos pocos casos han sobrevivido a lo largo de los siglos, por ejemplo en Cartagena Colombia. Allí sobrevivió uno de estos espacios generados por los esclavos libres que esta ahí todavía y que han conservado esta palabra del lenguaje que habían inventado. Curiosamente un instrumento de opresión como fue la lengua colonial, suponte en el caso del Brasil la lengua portuguesa, en el caso de las colonias españolas la lengua castellana, en el caso de los esclavos del norte la lengua inglesa, la lengua francesa. Ese instrumento de opresión se convertía en una clave de libertad porque permitía que se entendieran los oprimidos entre sí, que venían de lugares diferentes porque en África había y hay numerosos idiomas así como culturas y nosotros no sabemos nada del África. Eso es lo mas revelador de la supervivencia del racismo, de lo que son los negros. Las tierras americanas que del norte al sur han sido tan profundamente marcadas por la presencia africana ignoran una parte fundamental de sus raíces. En toda América somos hijos de muchas madres y eso es una suerte, es una clave de diversidad. Pero es como si fuéramos hijos de la madre europea y de las otras sabemos muy poco. Del pasado indígena, de las fuentes de sabiduría, de las cosas que podrían ayudarnos, en esas culturas negadas, despreciadas.
Y del África no sabemos nada mas de lo que nos enseño el profesor Tarzán que nunca estuvo ahí. Fue inventado por un escritor, Edgard Burrows, que era un jubilado de ferrocarril ingles que nunca estuvo en África, él inventó a Tarzán, que además de ser blanco parece que tenia relaciones confusas con la mona chita (se ríe)

Q! - Mucha sangre corrió en la historia de los pueblos africanos que llegaron a América pero también sobrevivieron esencias…
EG - Cuando los esclavos fueron trasladados en los buques negreros de África a América millones y millones, no se sabe cuantos, hay todos los cálculos que te puedas imaginar, pero no menos de 10 millones sobrevivieron a la travesía. Algunos dicen muchos más, y muchos millones murieron en la travesía por las pestes y por las condiciones en que viajaban atados uno al lado del otro. Los barcos no necesitaban anunciarse. Desde mucho antes se sabía que se acercaban al puerto por el olor, el olor a podrido, el olor a muerto, que tenían los buques negreros.
En esos viajes a través de la mar, no solamente fueron a parar al fondo de las aguas los negros que morían de peste, de hambre o de tristeza, porque muchos murieron de tristeza o se suicidaban ahorcándose con sus propias cadenas, sino que también fueron a parar al fondo del mar muchos de los dioses que esos hombres tratados como cosas traían del África. Sobre todo los dioses de la fecundidad, del trabajo, muy poquitos sobrevivieron a la travesía.
Quizás fue una especie de suerte de resistencia inconsciente. Es algo así como que los dioses de la fecundidad iban a ser mas útiles al amo que a ellos, si nos reproducimos y somos fecundos, mejor para el amo y no para nosotros, ni para esos niños que van a ser condenados a desdicha perpetua.
Y en cambio sobrevivieron los dioses bravíos, los rebeldes, los revoltosos, los dioses de la pelea, de la pasión, del deseo, los dioses que menos tenían que ver con las obligaciones del trabajo esclavo y más tenían que ver con la dignidad sobreviviente. Con esta porfiada dignidad que sobrevivió a lo que parecía que era una aplanadora irresistible, que se manifestó en un movimiento como estos de los quilombos y en una innumerable cantidad de insurrecciones que hubo en las plantaciones, muchísimas. (escribe en un papelito la palabra ‘quilombo’, lo subraya dos veces, lo dobla y lo guarda)

Q! - Esta porfiada dignidad negra, indígena, de América, vos la rescatas desde tus dedos al escribirla.
EG - Es fundamental que América recupere esa dignidad, pero no como acto de lealtad arqueológica, ni como una invitación al museo, “vamos a entrar al museo de la historia” yo soy un pésimo visitante de los museos me duermo en todos. Es una invitación a la vida, al asombro de la vida, a la electricidad de la vida. Creo que hay voces que vienen del pasado mas remoto que yo digo nuestro, aunque yo no creo en la cosa biológica de que porcentaje de sangre indígena. En los análisis de sangre todas las sangres son iguales, ¿o hay sangre negra en Haití? Creí que era roja siempre, esos disparates del racismo que tenemos incorporados, tan metidos adentro. Yo siento que los nacidos en América o los que han llegado a América aunque no hallan nacido en ella, la han adoptado como tierra propia que la aman porque se sienten queridos por ella. Tenemos un pasado a rescatar, una herencia a rescatar que es la mas remota, esa herencia que es digna de rescate es un buen alimento, un agua de beber, estamos muy sedientos, este es un mundo sediento que deambula por el desierto loco de sed que no sabe donde ir, y esas voces que suenan desde el pasado mas remoto antiguo nos dan un agüita fresca para beber.

*Eduardo Galeano es autor de varios libros, traducidos a mas de veinte lenguas, y de una profusa obra periodística. Fue jefe de redacción del semanario Marcha y director del diario Epoca, ambos de Montevideo. Fundó y dirigió la revista Crisis en Buenos Aires. Ha recibido el premio Casa de las Américas en 1975 y 1978, y el premio Aloa, de los editores daneses, en 1993. La trilogía Memoria del Fuego fue premiada por el Ministerio de Cultura de Uruguay y recibió el American Book Award en 1989.

viernes, 20 de agosto de 2010

Mão-de-obra no Brasil entre os séculos XV e XIX. Os índios - os negros

A primeira mão-de-obra utilizada nas terras brasileiras pelos brancos foi a indígena. Mais os portugueses inferiorizados numericamente estavam temerosos de forçar aos índios, então os tinham como trabalhadores livres. O mecanismo que se usava era o escambo.
No momento que se começou com a agroexportação, começaram a explorar ao índio como trabalhador forçado, escravizado. Foi submetido pela força das armas, eles desconheciam o trabalho escravo. Eles reagiram mais isso não impediu a escravização já que pertenceu a uns dos grupos sociais dominados pelo homem branco. Foi escravizado até fins do século XVII e em algumas regiões até fins do século XVIII. Foram empregados como mão-de-obra no princípio nas áreas produtoras de açúcar. O índio não tinha condições de escolher o tipo de trabalho.
A superação desta situação se deu por uma série de motivos.
Nomearei algumas: dificuldades para o abastecimento pela dispersão do indígena que tinha muito conhecimento do território, a proteção dos jesuítas e as guerras de eles em reação pelos roubos de terras e a escravidão. A ração principal foi o tráfico negreiro iniciado pelos portugueses a meados do século XV. O tráfico negreiro foi uns dos negócios mais rentáveis da época da colônia. A igreja aplaudia e justificava como veiculo para os converter à fé católica.
No primeiro momento, os traficantes se aproximavam a uma aldeia, os negros impossibilitados de reagir fugiam desesperados procurando escapar, era a única maneira de defender a liberdade e preservar a própria vida. As aldeias eram invadidas, incendiadas e prendiam aos que podiam. Depois passaram a estimular as guerras intertribais na África, os vencedores trocavam os vencidos por panos, alimentos, armas, cachaça. Assim mais de 70 milhões de africanosforam escravizados ou assassinados entre os séculos XV e XIX.
Das condições dos trabalhos já se falou na nota anterior.

lunes, 16 de agosto de 2010

O Navio Negreiro

Composição: Castro Alves
Voz: Caetano Veloso

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’Stamos em pleno mar
Era um sonho dantesco... o tombadilho,
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças... mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs.
E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja... se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa dos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais!
Qual num sonho dantesco as sombras voam...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanaz!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são?... Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa musa,
Musa libérrima, audaz!
São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz.
Onde voa em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados,
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão...
Homens simples, fortes, bravos...
Hoje míseros escravos
Sem ar, sem luz, sem razão...
São mulheres desgraçadas
Como Agar o foi também,
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos
Filhos e algemas nos braços,
N'alma lágrimas e fel.
Como Agar sofrendo tanto
Que nem o leite do pranto
Têm que dar para Ismael...
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana
Quando a virgem na cabana
Cisma das noites nos véus...
...Adeus! ó choça do monte!...
...Adeus! palmeiras da fonte!...
...Adeus! amores... adeus!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...
E existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?!...
Silêncio!... Musa! chora, chora tanto
Que o pavilhão se lave no seu pranto...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança...
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu na vaga,
Como um íris no pélago profundo!...
...Mas é infâmia demais...
Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo...
Andrada! arranca este pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta de teus mares!

domingo, 8 de agosto de 2010

Brasil: A escravidão

Na África, os prisioneiros de guerra ou as pessoas oferecidas como pagamento de dívidas chegavam às mãos dos mercadores nativos, eles os levavam ao litoral onde seriam comprados pelos agentes dos traficantes portugueses.
Cerca de 40 % morria antes de chegar ao litoral. Os compradores pagavam com produtos das colônias, café, açúcar, cachaça... além de pólvora e armas de fogo.
Os cativos vinham do Congo, de Angola ou de Moçambique... O negócio tinha seus riscos; por anos pensaram nos riscos dos mercadores, mais os riscos maiores eram para os negros...
Muitos cativos morreriam na travessia do oceano Atlântico, principalmente os de Moçambique já que a viagem durava até oitenta dias e as condições no navio eram horríveis. Apresentavam-se um retrato terrível das misérias humanas. As pessoas estavam apertadas umas às outras, pareciam esqueletos de tão magros e na pele tinham sarna. Estavam acorrentados aos pares, mão com mão, mão direita com mão esquerda, perna com perna, perna direita com perna esquerda... todos um só objeto... se um tinha doença, todos eram jogados ao mar... vivos...
Os escravos eram mercadorias, uma mercadoria frágil, o 15% morria na viagem pelas condições sanitárias, sem falar dos naufrágios...
Posso falar de genocídio sem medo de errar.
Entre os séculos XVI e XIX a África proporcionou cerca de 10 milhões de cativos as Américas... o Brasil recebeu um 40% dessa quantidade. O tráfico de escravos era um negócio imenso que aumentou com a chegada da corte e movimentou milhares de pessoas e muitos navios. Os lucros eram astronômicos. Um escravo se comprava a 70000 reais e se vendia a 240000 reais. Se o negro tinha sobrevivido à varíola valia mais, tinha mais chances de sobreviver. Até pessoas de classe média podiam ter escravos, os preços eram econômicos... as pessoas negras valiam nada...
Ao estado lhe correspondia ao ano o equivalente a uns 18 milhões de reais.
Ao chegar da África, os negros cativos eram depositados em casas e estavam em quarentena com sua cabeça raspada, para engordarem e se tratarem das doenças antes de se vender. Seu destino eram as minas, os engenhos, as lavouras de algodão, café ou tabaco... ou as casas grandes.
Os recém vindos que morreram antes de ser vendidos eram enterrados no cemitério de Pretos Novos; foram encontrados ossos com sinais de cremação e cobertos de cal. Os brancos eram enterrados nas igrejas perto de Deus...
Para comprarem os palpavam igual que a um boi. O negro tinha que caminhar, correr, esticar os braços, as pernas, mostrar a língua, os dentes... Assim, avaliavam sua “qualidade”...
O preço final era o equivalente a um boi, o dois... Na atualidade, como meio carro... Esse preço triplicava a paga original. O negócio movia centenas de navios e milhares de pessoas, os traficantes eram respeitados e recompensados com títulos de nobreza.
Toda pessoa com projeção social tinha negros cativos, os que tinham mais que os necessários, os alugavam ou os fazia participar do ganho. Pelo sistema do ganho, os negros faziam tarefas suplementarias vendendo seu trabalho por um dia ou por horas.
Ao terminar o dia passavam aos donos parte do ganhado e ficavam com uma partezinha, se fosse insuficiente o trazido era castigado. Os castigos incluíam correntes e colares de ferro, troncos com buracos para imobilizar, a máscara de flandres, o chicote.
A punição mais comum era o açoite. Mais como na época não tinham antibióticos a regularam já que as infecções e a gangrena faziam morrer aos negros. Para se evitar as infecções os banhavam com uma mistura de sal vinagre ou pimenta, as feridas ardiam e as torturas continuavam...
Alguns podiam acumular dinheiro do ganho para comprar sua liberdade, outros fugiam para a floresta ou simplesmente ficavam na cidade sem nenhuma proteção.
Nas cidades os donos não castigavam, iam à policia e eles designavam ao Carrasco que executaria o castigo, ele recebia uma paga por fazê-lo. Às vezes o carrasco era um negro supostamente livre...
Os atos mais punidos eram os crimes e as fugas. Ao achá-los, geralmente nos quilombos, os marcarem a primeira vez com uma F (fugido) nas costas sobre o ombro. Na segunda fuga cortavam suas orelhas e na terceira eram condenados à morte.
Ao ser recapturados os valores dos resgates eram negociados com os donos...
Também havia condições especiais para conseguir graças, por exemplo, se o escravo encontrava um diamante. Segundo o valor, tinha recompensa até da liberdade. Os que denunciavam aos donos por contrabando também tinham recebido prêmios.
A liberdade não significava melhoria de vida, em cativeiro tinham seguridade na comida e na saúde, em liberdade ficavam entregues a sua própria sorte. Marginalizados de todas as possibilidades, de todas as proteções, de todas as oportunidades.

A escravatura foi abolida em 1888, depois de 122 anos o problema da marginalidade não se conseguiu resolver.